Médico e o Monstro Vestem Fause Haten

21 06 2010

Hibridismo. Esta foi a palavra que não saiu da cabeça do estilista Fause Haten em sua última coleção para a São Paulo Fashion Week Verão 2011. Em seu desfile, realizado há pouco mais de uma semana, levou à passarela da Bienal um “quebra-cabeça”. Em uma espécie de caos lógico, Haten combinou a manga de um vestido com a saia de outro, juntou os dois com a barra de um terceiro e formou, por fim, uma nova, e híbrida, roupa. No entanto, mesmo depois de “misturadas”, cada peça adquiria uma individualidade única.

Há três dias, quando coordenava uma das provas de roupa para o espetáculo Jekyll & Hyde – O Médico e o Monstro, hibridismo e desconstrução estavam novamente ali, presentes nos vestidos, paletós e até batinas que os personagens do musical usarão no palco a partir de 8 de julho, quando o espetáculo entra em cartaz no Teatro Bradesco.

Com versão brasileira de Cláudio Botelho e direção artística de Fred Hanson, tem no elenco nomes como Nando Prado (Jekyll e Hide), Kiara Sasso (Emma, a noiva de Jekyll), entre outros.

Baseada no livro do escocês Robert Louis Stevenson, lançado em 1886, a história narra o drama de Henry Jekyll, médico que, obstinado em curar a loucura de seu pai, testa em si mesmo uma nova fórmula que promete isolar o “lado mau” que existe em cada ser humano. A empreitada não funciona e a face obscura de Jekyll toma a forma de Mr. Hide. Em vez do lado amável, o malévolo Hide, capaz de grosserias e atrocidades, passa cada vez mais a predominar sobre a personalidade do Dr. Jekyll.

É exatamente a forma original como Stevenson explora a linha tênue entre o bom e o mau que tornou a história tão popular ao longo dos séculos. O musical já foi visto por milhões de espectadores em 17 países e agora chega ao Brasil, mantendo suas características universais, mas com toques locais. Muito por isso, ainda que a história se passe no século 19 e que Haten tenha feito uma pesquisa minuciosa sobre os costumes e indumentárias da época, cada peça criada não é uma cópia exata do que se usava nas ruas de Londres quando o autor escreveu este que é um dos mais clássicos textos da língua inglesa.

Assim como na passarela de Haten, o que vai se ver no palco são híbridos entre o estilo “anquinha” e o contemporâneo. “Não há como criar algo totalmente fiel ao tempo passado. Tudo que faço é reflexo do meu próprio tempo”, explicava o estilista ao Estado, enquanto botava literalmente a mão na massa e marcava com giz o corte “mais aberto” para o casaco do personagem Mr. Utterson, amigo do Dr. Jekyll. “Este mais aberto dá um ar contemporâneo ao personagem”, indicava Haten ao alfaiate De Lello.

Indicações feitas, De Lello leva de volta as peças para seu ateliê e lá dá forma ao que Haten imaginou para cada indumentária. “Ele é um dos poucos que sabem mostrar e fazer o que quer. Isso é raro. Os figurinistas em geral dizem: “Quero assim.” Já ele pega o giz e risca mesmo“, disse o alfaiate.

De fato. Enquanto contava que, ao receber o convite da produção do musical, aceitou na hora “porque este é um dos textos de que mais gosta“, Haten pregava alfinete por alfinete nas sobras a serem tiradas dos ombros do “Bispo”. “Ainda bem que há alguma sobra. Afinal, ninguém é perfeito“, brincava De Lello.

Mas é exatamente esta imperfeição criativa que Haten tem buscado em seu trabalho. Hibridismo, imperfeição, caos… Tudo bem calculado, é claro. Para conceber os mais de 200 figurinos que compõem o espetáculo, orçado em R$ 6 milhões, Haten criou detalhados croquis, com indicações de tecidos, decotes, babados, cores… “O croqui é uma referência importante, mas o que vai se ver no palco é bem diferente porque tudo foi evoluindo ao longo do processo. Dividi o espetáculo em fases e núcleos. Há o núcleo rico e suas duas fases. A do noivado, quando Jekyll ainda está doente e Mr. Hide assombra a cidade. E a do casamento, quando tudo é otimista. Para a primeira, escolhi tons mais escuros, tecidos pesados, muita lã, marrom, cinza… Para a segunda, há tons claros em maior quantidade, vestidos vaporosos, detalhes coloridos para os homens“, conta Haten.

Anquinhas. São exatamente os personagens femininos que “ajudam” o estilista a marcar no figurino essas fases da história. Vale lembrar que o mistério se passa no final da era vitoriana, quando a Inglaterra vivia sua Pax Britannica, período de prosperidade, resgate dos valores e “bons costumes”. Contraditoriamente, era também apontada por muitos historiadores como plena de hipocrisia e repressão moral. A moda da época repetia as tendências da década de 30 do mesmo século e a famosa “silhueta em S” (conseguida graças à combinação de espartilho, saias rodadas e armadas sobre as famosas anquinhas) ditava o estilo e classe social das mulheres. “Os homens, ainda que usassem cetim, veludo, eram também mais discretos e seu figurino girava muito em torno de calças de lã, camisas brancas, sobretudos. Já as mulheres usavam frufrus, armações. Quanto mais ricas, maiores as ancas.”

Já os pobres… “Bom, o núcleo pobre tem tons terrosos, tecidos envelhecidos e sem o tingimento tão sofisticado. Quanto mais pobre a mulher, ainda que a saia fosse rodada, menos armação tinha. E muito menos detalhes havia nos vestidos. É esta diferença visual que quero que fique clara no palco.”

Por falar em palco, é exatamente nele que o estilista quer estar cada vez mais. Além de ter se formado em atuação na Escola de Teatro Célia Helena, vem exercitando sua voz em sua loja (o espaço FH, em Pinheiros) e em seus desfiles. “Quando resolvi cantar nas duas últimas SPFW, perguntaram, assustados: “Tem certeza de que quer se expor?” Tinha. É isso que quero. O desconhecido, o novo. Fazer coisas como criar figurinos, atuar, cantar…”, comenta Haten, que está levando os planos tão a sério que participou dos testes para o futuro musical Mamma Mia. “Cheguei às finais da seleção, mas perdi para os veteranos. Brinco com o pessoal que eles têm de espalhar que sou péssimo figurinista. Porque da próxima vez quero estar no palco.”

Fonte: Estadão


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